(Amadeu de Souza Cardoso)
Segundo a filosofia Zen, seguida por Bashô, podemos reconhecer no poema o conceito de iluminação súbita que permite a percepção da verdade: o movimento ruidoso da rã permite reconhecer o transitório e o eterno, que não se antagonizam mas se unem num instante único.
E, no entanto, o poeta diz apenas que ouviu o som de uma rã a saltar para dentro de um velho tanque. Nada mais diz, explica ou esconde. Aqui reside o conciso, o depurado, a simplicidade, a fluência e a beleza natural do haiku. A expressão minimalista que harmoniza o caos num único instante.
Verdade
"A felicidade é de todas as mentiras humanas, a que menos dura." (L’espasa)
No outro dia passeavam os meus olhos pela imprensa pendurada num quiosque quando fui invadido pela perplexidade, numa conhecida revista lia-se em letras garrafais “Todos nós mentimos”.
Não queria acreditar, primeiro fiquei imenso tempo a olhar para aquela capa de revista, depois e ainda não refeito, olhei para as pessoas que sem saberem de tal verdade passavam em frente do quiosque embrenhadas nos seus pensamentos quem sabe mentirosos.
Quando alguém te mente chamas-lhe mentiroso, todos nós já fomos vítimas de alguém com esse terrível nome, fomos enganados! Talvez até maltratados com palavras doces!
A primeira reacção a tal facto medonho é a defesa, jamais voltar a acreditar no outro, desconfiar sempre, dar um grande abraço no nosso cão de estimação e olhos nos olhos dizer-lhe “tu pelo menos nunca me mentis-te, não serias capaz”, a lembrar as longas noites solitárias da nossa infância onde só o peluche que se esmagava contra o peito aquecia a alma.
Quem é afinal esse mentiroso, és tu? Sou eu? Somos todos nós. Mentir faz parte da verdade, a mentira resguarda o que mais de sublime existe na verdade, dá-lhe protagonismo, poder, coerência.
Que seria de mim, de ti, se dentro de nós não passeassem verdades que nunca poderão ser ditas, que muros de mentiras construímos com o propósito de as resguardarmos da terrível realidade.
Mas buscamos sempre a verdade, a nossa verdade!
E nessa infindável busca mentimo-nos, pois só assim podemos por momentos sentir a verdade.
A verdade a mentira talvez não existam, existe com toda a certeza que num determinado momento quero ou não acreditar num facto, numa palavra, num sentimento, e se nele encontro sentido isso é verdade, se não é mentira.