(Salvador Dali)
Bom estudante surpreende os professores desde tenra idade ao trabalhar com afinco e determinação.
Aos 8 anos lê Shakespeare, e logo ai inicia a sua edificação cultural, mantendo um crescente interesse pela literatura, história, religião e mitologia, bases para a importância da linguagem e da dimensão do mito.
Apaixonado pela dimensão humana ideologia primeiramente o estudo de direito, acabando por escolher medicina, não para exercer mas para saber.
Tal decisão encontra fundamento nos ensaios de Goethe e nas publicações de Darwin.
Mesmo perante a recessão económica e o movimento anti-semita, Freud entra para a universidade, onde demonstra um forte carácter, (segundo as suas palavras: inspirado em Aníbal), desde logo recusa-se a fazer parte da maioria silenciosa.Os contactos com Charcot, foram inspiração e incentivo para um génio até ai impaciente, determinando o seu caminho pela neurologia e o interesse pela histeria.
Através de Bernheim e outros, Freud estuda e aplica a hipnose, como prática para aceder ao não verbalizado e à descoberta irremediável do inconsciente.Surge então Anna O, imobilizada em casa por uma histeria, vive numa constante angústia e com alucinações.
Anna O é seguida dia e noite por Breuer que só através da hipnose consegue por breves momentos aliviar tal angústia.Freud chamado pelo seu amigo Breuer, decide abandonar a hipnose no caso de Anna O a partir da sugestão e da insistência persuasiva (por ex. à pressão da mão sobre a fronte) consegue obter resultados bastante satisfatórios.
Anna O leva Freud a tomar uma direcção que o afasta de Breuer, mas que o direcciona para um pensamento já não próprio do anatomapatologista e neurologista mas do “médico erótico” (expressão usado no seu tempo).
Depois de muitas hesitações e incertezas Freud aos 31 anos vê-se quase obrigado a abandonar por completo a hipnose e a sugestão, pois as suas pacientes pedem-lhe “ouça-me!” ele fica surpreendido, mas não desconcertado. Inicia-se então a técnica de fazer falar e de ouvir livremente, não seguindo nenhum protocolo científico, é o método de “associações livres”.“Um homem como eu não pode viver sem ideia fixa, sem uma paixão ardente, sem tirano. Encontrei esse tirano e submeti-me de corpo e alma. Chama-se psicologia e sempre fiz dela o meu objecto longínquo e mais atractivo”.(Freud)
Ele quer resolver o enigma da vida, de achado em achado, (psicopatologia do recalcamento, conflito das pulsões, a descarga sexual transformada em angústia, repetição mnemónica, a conversão/tradução do psique em imagens verbais e em realizações físicas), leva-o a resumir que “os sintomas são quase sempre formações de um compromisso”, e que “o sonho é a realização de um desejo”.
Com a morte do seu pai, e ao se deparar com uma angústia avassaladora e um desamparo difícil de controlar, Freud reformula a teoria do complexo de Édipo que inicialmente era: “o pai perverso, fazer do pai o promotor da neurose, estabelecer a etiologia paterna da histeria”, passando a ser: “não existe no inconsciente nenhum indício de realidade, de tal forma que é impossível distinguir entre a verdade e a ficção investida de afecto. É por isso que continua a ser possível uma solução, ela é fornecida pelo facto de o fantasma sexual se mover sempre em torno do tema dos pais”.
Iniciando assim a hipótese de que a realidade é substituída pelo fantasma.Sendo assim, Freud já não pretende encontrar um traumatismo na vida real de cada paciente, mas de compreender qual o mito pessoal em que cada um se constrói. Tal construto aparece pouco tempo depois de Freud ter utilizado pela primeira vez a palavra “psicanálise” (Março de 1896), e de ele próprio ter iniciado a sua auto-analise (Agosto de 1897).
A partir de 1902, alguns jovens médicos agrupam-se com o objectivo de aprender psicanálise, para a exercerem e divulgarem. As reuniões são feitas na casa de Freud todas as 4ª Feiras seguindo determinadas regras por si impostas.
Por esta altura, Freud desmistifica a associação de que o despertar da sexualidade acontece na adolescência, ele fá-la remontar à primeira infância “as pulsões que modulam o desenvolvimento ulterior da vida psíquica estão activas desde a primeira infância”.
E a aventura continua com a tentativa de transmitir a outros o que já o acompanha à muito “aprender com um olhar a imagem de um mundo!” Como primeiro discípulo, vamos encontrar Carl Gustav Jung.
desenvolveu por Jung um carinho especial, pois este seu novo discípulo vinha de um ambiente não Judeu, e muito crítico para com os grupos anti-semitas.
Mas Freud na sua posição de pai e chefe do movimento psicanalítico, sempre foi um critico impiedoso, o que o leva a afastar-se mais tarde de companheiros incluindo Jung em 1914.
Em 1917 foi-lhe diagnosticado cancro no palato, provocado pelo abuso do tabaco, (do seu inseparável charuto), operado pela 1ª vez em 1923, inicia-se um longo sofrimento e utilização de uma prótese maxilar à qual ele chamava o seu “monstro”.
Em 1920, em Para Alem do Principio do Prazer, teoriza aquilo a que se chama Pulsão de Morte, opõe-se à vida, tende para a redução completa das tensões e reduz o ser vivo ao estado inorgânico.
Em O Futuro de uma Ilusão e Mal Estar na Civilização, inicia uma reflexão sobre a religião e a moral sexual, e dos esforços consideráveis exigidos pela cultura para recalcar as pulsões sexuais renunciando à sua satisfação imediata.1930 Morre-lhe a mãe ao que escreve “eu não tinha o direito de morrer enquanto ela ainda estava viva, mas agora tenho esse direito”.
Nesse mesmo ano recebe o prémio Goethe iniciando-se o fechar do ciclo.
Só como sempre esteve no apoio admirável à sua causa, é a sua filha Anna que transmite o que lhe resta de vida.Em Maio de 1938, perseguido pelos Nazis deixa Viena.Às portas da morte escreve “e o meu universo é de novo aquilo que era outrora, uma pequena ilha de sofrimento nadando num oceano de indiferença”.
Junho de 1939, pede ao seu médico ajuda para parar o sofrimento: a 23 de Setembro dois centigramas de morfina faz com que adormeça serenamente, depois o coma de seguida às três horas da manhã a morte.
Alguém tinha que colocar as questões, marcar a diferença revolucionando, criticando.Freud foi o primeiro a trazer para a mente humana os pressupostos da arqueologia permitindo assim que o Homem moderno com o seu infindável potencial alimentado pelo incontrolável narcisismo, possa fazer a transição do passado para um futuro e fazer da sua vida, uma vida única pessoal e intransmissível, nunca deixando de admirar compreender e fomentar a identidade do outro.
Freud, um génio que se estendeu pela vida, criou saber, aceitou a morte, e sempre com a mítica frase “No fundo, não sou nada”.
Babin, P.(2003). Sigmund Freud “um trágico na era da ciência”. Lisboa: EdiçõesQuimera.
Freud, S. (1915). Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade. Lisboa: Edições Livros do Brasil.