À procura de Nemo

Ensinai as crianças para não castigarem os adultos
(Platão)

Seguindo a sapiência do povo “é a vida”. Vidas todas elas o são, o que as distingue é a época e valores vigentes.

E a Walt Disney sabe bem disso, pois ao longo dos anos tem vindo de uma maneira mais ou menos explicita a educar crianças, dando-lhe os valores vigentes da cultura em que estão inseridas.

O Walt Disney ao criar o seu rato Mickey, talvez não soubesse que iniciara uma nova utilidade para a caixa mágica, o ensino tanto para grandes massas como para públicos específicos.

Mas a ideia ganha dimensão e quem não se lembra da rua sésamo que levou às casas e escolas de todo o mundo personagens simples mas com objectivos bem definidos e estruturados.

A bola de neve continua e quando nos apercebemos temos a caixa mágica a ensinar as nossas crianças em perfeitas linhas de montagem, substituindo pais e professores, e por fim de forma extremista toma a direcção da manipulação.

Se isso nos assusta e até nos revolta, “é a vida”, é a sociedade que todos construímos e alimentamos diariamente, mas também é aqui que temos que sentir que um faz a diferença.

E no filme “À procura de Nemo” existe a diferença.

Numa família mono parental, o pai preocupado com a educação e bom desenvolvimento do seu filho contra tudo luta, sofrendo a pressão de ter que cuidar e educar sozinho.

E como em todas as vidas a aventura acontece!

E começa quando uma criança deseja ser adulto, testando os seus limites desafiando o mundo que intrigando convida à descoberta.

O pai eterno protector, guardião de todos os segredos e saberes, parte à procura do seu filho, e sem o saber ao encontro dos dias em que o sonho o transportava nos seus braços mágicos, em que tudo era reveladoramente novo e a excitação começava para além do olhar.

Fazendo-nos sentir que a vida também é um percurso com encontros “…olá eu sou a Dora…” e desencontros (quando um tubarão em terapia jura não comer peixe até cheirar a primeira gota de sangue).

Dora (peixe de memória curta), transporta-nos para um local onde não existe o fazer bem ou mal, só tens que fazer, e para tal basta viver o momento e ter determinação para se conquistar o seguinte agarrando-o com toda a intensidade e deslumbre, “é a vida” sempre com o desconhecido na palma da mão.

Pai e filho vêem-se envolvidos pela amizade e amor, mas também por incertezas só ultrapassadas quando o companheirismo se revela mesmo da maneira mais inacreditável. Quando tudo nos parece perdido e estamos prontos a desistir alguém ao nosso lado com uma determinação assustadora diz ser capaz de falar a linguagem das baleias.

Se Platão nos deixou ensinamentos para a eternidade, Nemo demonstra-nos que a vida tem que ser partilhada, conquistada e saboreada num encontro ou junto de quem nos procura e acompanha nem que seja por um derradeiro mas imenso momento.

Quem não sabe castiga-se, Platão alertou-nos para tal mas nós fazemo-lo todos os dias, será que o castigo ensina?

Se o pai de Nemo tivesse tido a oportunidade de evitar que o seu filho se perdesse no desconhecido iria castiga-lo, que pena! nós não iríamos ver tão fantástica aventura, Nemo e seu pai nunca aprenderiam a viver fora do seu coral, Dora não precisaria de dizer “…olá eu sou a Dora…” e nunca iria treinar a sua linguagem de baleia, não teríamos oportunidade de nos aperceber de que quando um peixe sonha outro tem de estar acordado.

Vamos viver, vamo-nos deixar de castigar, obrigado Walt Disney!

 Olhem! “é a vida”...